
Fé não é abandono da medicina
Um dos pontos mais delicados dessa discussão aparece quando a fé é interpretada como substituta do tratamento médico. Para o Dr. Marcellus, uma fé madura aponta na direção oposta. “Uma Fé madura não me leva a renunciar a ciência na busca de soluções, chegando ao extremo de abandonar um tratamento de uma doença”, afirma.
A posição também é coerente com a literatura científica. Os estudos que investigaram espiritualidade e saúde não autorizam a conclusão de que orar seja uma alternativa a medicamentos, cirurgia, quimioterapia, radioterapia, diálise, fisioterapia ou qualquer outra intervenção indicada por profissionais habilitados.
A oração pode fazer parte da experiência de enfrentamento. A medicina continua sendo necessária para diagnosticar, acompanhar e tratar a doença.
A comunidade religiosa também pode desempenhar uma função importante. No estudo do JAMA, a participação em comunidade espiritual foi associada, em diferentes conjuntos de evidências, a indicadores como menor depressão, menor risco de suicídio, menor uso de substâncias e maior longevidade. Essas são associações observacionais e, portanto, não significam que frequentar uma igreja automaticamente produza esses resultados.
Há ainda uma questão pouco discutida: a espiritualidade pode assumir formas positivas ou negativas. Uma revisão de estudos quantitativos sobre pacientes oncológicos publicada em 2025 encontrou associação entre manifestações positivas da espiritualidade e melhor saúde mental e adaptação à doença, enquanto manifestações espirituais negativas estavam associadas a piores resultados e menor aÉ nesse ponto que surge uma diferença fundamental entre crer que Deus pode curar, acreditar que Ele necessariamente vai curar e continuar confiando no Senhor mesmo quando a cura não acontece.
A primeira afirmação pertence à fé na possibilidade da ação divina. A segunda transforma essa possibilidade em uma certeza sobre um resultado específico. A terceira é uma postura de confiança que não depende da obtenção de um desfecho previamente determinado.
Na tradição cristã, essa distinção permite compreender por que a esperança não precisa desaparecer diante de um diagnóstico sem cura. A esperança pode deixar de significar “tenho certeza de que vou sair desta doença” e passar a significar “não estou sozinho e minha vida não perdeu seu sentido, mesmo diante desta doença”.
O nefrologista resume essa integração entre o que é físico e aquilo que transcende o mensurável: “Diferente do mundo secular, esperança cristã não nasce de uma ideia, de uma corrente filosófica positivista, mas de um encontro com uma pessoa – Jesus Cristo, realidade esta que dá um novo sentido para nossa vida, a ponto que não entender a morte como oposto a vida, mas como oposto do nascer, a ponto de não viver buscando as ‘penúltimas coisas’, mas pelas ‘ultimas coisas’”, enfatiza.
De acordo com o médico, ao assumirmos essa mentalidade estamos integrando o imanente com o transcendente, o corpo com o espírito, pois “o espírito é que vivifica” (Jo 6:63). Isto faz diferença faz diferença durante uma doença grave, potencializando todas as medidas de tratamento, mesmo que não se possa medir cientifiIsso significa que dizer a um paciente “se você tivesse fé suficiente, estaria curado” não é apenas cientificamente infundado. Pode produzir culpa, sofrimento e sensação de fracasso espiritual em alguém que já está enfrentando uma doença grave.
E quando a cura não acontece?
É provavelmente nesse ponto que fé e medicina encontram sua fronteira mais dolorosa. Dr. Marcellus não apresenta a fé cristã como uma promessa de que todas as orações resultarão na cura esperada. Sua reflexão parte justamente dos momentos bíblicos em que a resposta parece tardar.
“Acredito que seja um dos momentos mais difíceis para o cristão, que é o silencio de Deus diante de nossas orações. Os discípulos vivenciaram este silencio quando estavam em uma barca durante uma tempestade em que Jesus dormia (Mt 8: 23–27). Marta e Maria também fizeram a experiência do silencio quando pedem para avisar Jesus ‘aquele que tu amas está enfermo’ e qual a atitude de Jesus? Leva ainda dois dias p/ ir ao encontro de Lazaro (Jo 11). O próprio Jesus na cruz faz a experiência do silencio de Deus quando clama ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? (Mt 27,46). O silêncio de Deus diante da oração de um doente não é sinal de abandono, mas um mistério que deve ser compreendido à luz da cruz de Cristo”, enfatiza o médico, que completa:
“Deus fala também através do silêncio. Contudo em todas estas passagens bíblicas, esse silêncio não foi ausência do Pai, mas de forma especial na passagem de Jesus na cruz, foi o caminho pelo qual o amor de Deus se revelou plenaente A ciência pode dizer até onde seus instrumentos alcançam. A fé, para quem crê, começa justamente onde a realidade não cabe inteiramente em uma tabela de resultados. E talvez seja nesse espaço, entre o que pode ser medido e aquilo que é vivido, que medicina e espiritualidade encontrem uma linguagem comum: não a promessa de que todo doente será curado, mas o compromisso de que o ser humano seja cuidado por inteiro.
Fonte Comunhão.
Fonte: wp:net3gospel.com.br:53483




