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Notícias/Reflexão12/08/2026· Local

A igreja está vivendo em outro planeta

As expressões musicais estão praticamente todas em inglês, o visual dos músicos é novaiorquino, e a guitarra, a pedaleira e os teclados são importados dos EUA. As referências de igrejas, escritores e pregadores, claro, são 90% norte-americanas, e várias igrejas estão abrindo filiais em Orlando (a nova Jerusalém). E mais. As conversas sobre trabalho, acredite, contêm 70% de expressões em inglês. Quem não sabe inglês, forget it. E os anúncios durante os cultos utilizam dezenas de palavras em inglês: coffee break, workshop, self-service, news, show, spoiler, in off, fashion, tickets, book, time out… Tenho dó de quem não se aculturou e não fala em “língua” … inglesa.E quando acaba o culto, a galera vai pra algum fast food se entupir de trash e conversar sobre os filmes e artistas norte-americanos… ou vão de delivery mesmo. Ah, e percebi também que a palavra “sim”, aos poucos, vem sendo abolida. Agora é “ok”. Quase ninguém sabe o significado original de “ok”, mas “usa”.

A impressão que tenho é que os crentes brasileiros estão vivendo em outro planeta, o norte-americano, sonhando morar em Orlando, Miami ou New York. Às vezes, tenho a impressão de que os crentes são seres saídos de dentro das séries da Netflix, trocando até o futebol pelo basquete. Alguém me responda: “Que problema há em usarmos o português pra nos comunicarmos no Brasil?” Será vergonha? Complexo de inferioridade? Particularmente, não acho que o mundo entrou na Igreja. Penso que a Igreja é que criou seu próprio mundo… copiando o norte-americano, claro. Assim, todo brasileiro “raiz” que se converte tem que se adaptar ao estranho mundo dos crentes, ou será excluído da Igreja. Aliás, no passado, as pessoas eram excluídas e/ou escanteadas na Igreja por adultério, uso de drogas e bebida, roubo, mentira. Atualmente, é por não se adequarem à linguagem norte-americana do novo planeta dos crentesDeste modo, a igreja brasileira tem se tornado um cemitério de brasileiros legítimos, uma prisão onde cada pessoa que entra perde sua identidade cultural, seu gosto musical e seu dom natural, para se adaptar a um novo planeta completamente norte-americanizado. 

Por fim, o que mais me preocupa nisso tudo é que essa realidade está se estendendo por muito tempo e o estado de exceção está virando regra. As crianças e adolescentes que já nascem e crescem nesse planeta, nem brasileiro nem americano, não têm a mínima noção do que seja viver fora dos portões dessa realidade. Já nascem doutrinados e adaptados a esse planeta meio estético, bastante sintético e bem patético. Quem tem ouvidos e sabe inglês, claro, que ouça! Que Deus tenha misericórdia e ajude os cristãos do Brasil a saírem dessa armadilha e encontrarem a verdadeira identidade como igreja brasileira em unidade com a cultura nacional. Praise the Lord!

 

Atilano Muradas é jornalista, teólogo, escritor e compositor.

 

Fonte: wp:net3gospel.com.br:53247