
A presença de pessoas homoafetivas nas igrejas evangélicas continua sendo um dos temas mais espinhosos do cristianismo contemporâneo. Embora a figura de Jesus seja símbolo máximo do acolhimento, muitos cristãos ainda enfrentam dificuldades para tratar a homossexualidade com clareza, amor e firmeza doutrinária. Parte das igrejas silencia, outra rejeita e há ainda aquelas que buscam uma abordagem de discipulado com base na graça.
Segundo a pesquisa mais recente do Instituto Datafolha (2023), 56% dos evangélicos brasileiros acreditam que a homossexualidade “deve ser desencorajada”, enquanto apenas 18% defendem que deve ser aceita. Por outro lado, cresce o número de igrejas chamadas “inclusivas”, que acolhem fiéis LGBT+ sem exigir mudança de conduta, o que tem gerado reações entre denominações históricas.
Para o pastor Eber Cocareli, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e apresentador do programa Vejam Só!, da RIT, o tratamento dispensado pelas igrejas aos homossexuais costuma variar entre dois extreOu ela é uma igreja chamada de acolhedora, onde os homossexuais são tratados como pessoas comuns, são geralmente as chamadas igrejas inclusivas, ou é uma igreja mais tradicional, que prefere não abordar o tema explicitamente. Fingem que não veem, o assunto é ignorado”, afirma.
A omissão, segundo Cocareli, tem uma motivação clara: “Há receio de repercussão negativa na mídia, de processos ou denúncias. Muitos pastores evitam falar do tema porque temem ser tachados de homofóbicos, o que causa uma espécie de censura preventiva dentro das igrejas.”
Lisânias Moura, teólogo e escritor, autor do livro “Cristão homoafetivo?”, tem buscado uma via mais pastoral. Para ele, o ponto de partida deve ser sempre o olhar compassivo: “Procuramos ouvir sem julgamentos. Se vieram à igreja, cremos que Deus tem algo para eles. Se querem ajuda, oferecemos ajuda, seja por meio de aconselhamento, discipulado, etc.”
A abordagem, diz Moura, não parte de uma doutrina de aceitação irrestrita, mas do princípio de que todos são pecadores e carecem da mesma graça. “Se são seguidores de Jesus, mas desejam continuar vivendo na prática dos desejos homoafetivos, procuramos exortar, acompanhar e disciplinar, como fazemos com outros comportamentos, mas sempre agimos a partir da gEssa perspectiva, de certa forma, tenta equilibrar o compromisso com a doutrina bíblica e a sensibilidade pastoral. Moura ressalta: “Cada pessoa que chega à igreja é alguém por quem Jesus morreu. Seja um dependente de pornografia, alguém que cometeu adultério ou um homoafetivo, procuramos mostrar Jesus como a única esperança de perdão e recomeço.”
Cocareli aponta outro fator que, em sua visão, dificulta o diálogo: o ativismo. “A militância do movimento LGBT atrapalha demais. O medo de ser rotulado impede que muitas igrejas abordem o tema de forma bíblica, amorosa, sadia. Existe um patrulhamento muito intenso, inclusive sobre profissionais cristãos da área de psicologia.”
Segundo ele, já houve casos em que psicólogos convidados para o programa Vejam Só! sofreram pressão de conselhos profissionais. “Hoje, muitos se recusam a participar por medo de sanções. Isso acaba por silenciar até o debate.”
Cocareli entende que a renúncia de práticas contrárias à Bíblia não é uma exigência exclusiva aos homossexuais. “Jesus nos chama à renúncia. Todos temos áreas da vida que precisam ser submetidas à cruz. O homossexual não é um caso à parte, é um pecador, como todosA forma como a igreja lida com os homossexuais revela muito sobre sua teologia, sua prática pastoral e sua capacidade de lidar com a complexidade humana. Entre o silêncio e o acolhimento irrestrito, entre a disciplina e a empatia, as igrejas continuam sendo desafiadas a pensar, e viver, o Evangelho em tempos de diversidade e polarização.
Como diz Lisânias Moura, o caminho passa por enxergar o outro como alvo da graça: “Não é sobre tolerar ou rejeitar. É sobre anunciar que há esperança e recomeço para todos, inclusive para mim e para você nós.
Fonte: wp:net3gospel.com.br:54006




