
Estudo revela obstáculos de mulheres pretas em relacionamentos estáveis. – Foto: Reprodução IAPor Cristiano Stefenoni
O amor costuma ser apresentado como uma experiência individual, guiada pelo encontro entre duas pessoas. Mas uma pesquisa realizada por sociólogas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), financiado pela FAPESP, mostra que as relações afetivas também são atravessadas por estruturas sociais, entre elas o racismo. O estudo de Maria Chaves Jardim e Renata Paoliello analisou experiências de mulheres pretas e identificou obstáculos que ultrapassam as frustrações comuns da vida amorosa.
Publicado na revista Tomo, o estudo ouviu 64 mulheres pretas com diferentes condições socioeconômicas. Parte das participantes tinha formação universitária e respondeu à pesquisa por meio de questionário; outra parte era composta por mulheres sem diploma superior, residentes em um bairro popular de Araraquara, no interior de São Paulo. A proposta foi compreender de que maneira a cor da pele interfere nas experiências afetivas e na possibilidade de construir relacionamentos.Na investigação, a pesquisadora também acompanhou as dinâmicas dos aplicativos Tinder e Badoo, estabelecendo contato com mais de cem homens. O trabalho incluiu ainda 15 entrevistas presenciais e conversas com participantes de um grupo virtual fechado, no qual mulheres trocavam relatos sobre suas experiências amorosas e estratégias para conquistar parceiros nas plataformas.
A pesquisa parte da ideia de que o amor não acontece em um espaço social neutro. Assim como outras relações, ele também envolve poder, valores, expectativas e padrões construídos historicamente. Nesse contexto, o racismo pode influenciar quem é considerado desejável, quem recebe atenção e quem encontra maiores dificuldades para estabelecer vínculos.
Quando a desigualdade chega ao relacionamento
Os relatos reunidos pelas pesquisadoras apontam experiências de racismo desde a infância e a adolescência, além de situações de invisibilidade afetiva e relacionamentos marcados por abusos. Para algumas entrevistadas, a dificuldade não estava apenas em encontrar um parceiro, mas em conseguir estabelecer uma relação que correspondesse ao modelo de relacionamento estável e familiar valorizado socialmente.
O estudo estabelece uma diferença importante entre as experiências de mulheres brancas e pretas. No debate social, é comum que a mulher branca seja apresentada diante do dilema entre carreira e casamento, como se precisasse escolher entre investir na vida profissional ou construir uma família.Para as mulheres pretas entrevistadas, porém, o problema pode aparecer antes dessa escolha. A questão apontada pelas autoras é a dificuldade de acesso ao próprio relacionamento afetivo.
Essa diferença revela como raça e gênero se cruzam na construção das trajetórias amorosas. Enquanto algumas mulheres discutem como conciliar diferentes projetos de vida, outras relatam não ter conseguido sequer experimentar o relacionamento romântico estável que desejavam.
O desejo de amar e ser amada
As entrevistas mostram que o desejo por uma relação duradoura está presente entre as participantes. Ele aparece tanto na expectativa de casamento quanto em situações cotidianas, como andar de mãos dadas com alguém ou construir uma vida compartilhada.Ao analisar esses relatos, as pesquisadoras dialogam com diferentes teorias sociológicas sobre o amor. Entre elas estão o amor romântico, o amor confluente, o poliamor e o conceito de “amor líquido”, desenvolvido pelo sociólogo Zygmunt Bauman para descrever relações mais frágeis e instáveis.Para parte das mulheres pretas ouvidas, entretanto, os relacionamentos instáveis não aparecem necessariamente como uma escolha entre diferentes formas de amar. Eles podem ser percebidos como uma das poucas possibilidades disponíveis.
Algumas participantes relataram início tardio da vida afetiva e sexual. Outras descreveram relações sem compromisso ou situações em que ocuparam a posição de amante. A pesquisa aponta que essas experiências nem sempre eram resultado de uma preferência pessoal, mas estavam relacionadas à percepção de escassez de alternativas afetivas.
A contradição da hipersexualização
Um dos aspectos mais marcantes apontados pelo estudo é a contradição entre a histórica hipersexualização das mulheres negras e a invisibilidade afetiva relatada pelas participantes.
Se, por um lado, existe um estereótipo que associa mulheres negras à sexualidade exacerbada, por outro, os relatos reunidos pelas pesquisadoras mostram dificuldades para serem reconhecidas como parceiras em relacionamentos estáveis.Nos aplicativos de relacionamento, essa contradição também aparece. Algumas mulheres relatam receber abordagens predominantemente sexuais, reduzindo as possibilidades de construção de vínculos duradouros.
Nesse cenário, a objetificação não significa necessariamente maior acesso ao relacionamento. Ao contrário, pode reforçar uma separação entre desejo sexual e reconhecimento afetivo.
Entre a solidão e a desistência
Diante das experiências acumuladas, algumas participantes relatam ter escolhido o celibato ou a solidão afetiva. Entre as mulheres pretas com formação universitária analisadas pela pesquisa, as autoras identificaram relatos de preferência pela solidão em vez da aceitação de relações consideradas insatisfatórias ou instáveis.
O estudo mostra, portanto, que a chamada “solidão” não deve ser automaticamente interpretada como uma escolha individual. Em determinadas trajetórias, ela pode surgir depois de experiências repetidas de rejeição, objetificação ou ausência de possibilidades de relacionamento que correspondam às expectativas das mulheres.
Outras participantes construíram suas famílias como mães solo, mostrando que as dificuldades encontradas no mercado afetivo também podem repercutir na organização da vida familiar.
Um problema que não começa nos aplicativos
Embora os aplicativos de relacionamento tenham ampliado as possibilidades de encontro, a pesquisa mostra que eles não funcionam como espaços livres das desigualdades existentes na sociedade.
Essa conclusão dialoga com outro trabalho desenvolvido por Maria Chaves Jardim sobre aplicativos de relacionamento. A partir da sociologia econômica, a pesquisadora considera que mercados são construídos socialmente. Isso significa que preferências, padrões estéticos, valores culturais e relações de poder também participam da definição de quem é valorizado nesses espaços. Assim, transferir a busca amorosa para uma tela não elimina preconceitos. Eles podem apenas assumir novas formas.A lógica dos aplicativos, baseada em perfis, fotografias, filtros e escolhas rápidas, pode reforçar padrões de aparência e comportamento já presentes na sociedade. Pessoas que não se enquadram nesses padrões podem encontrar mais dificuldades para obter visibilidade.
Amor também envolve poder
Para as autoras, reconhecer a dimensão social do amor ajuda a deslocar a discussão da responsabilidade individual para uma compreensão mais ampla.
Quando uma mulher enfrenta repetidas experiências de rejeição ou invisibilidade afetiva, existe o risco de interpretar o problema exclusivamente como uma falha pessoal: aparência, personalidade, comportamento ou incapacidade de estabelecer vínculos.
A pesquisa propõe outra leitura. As experiências afetivas são construídas dentro de uma sociedade marcada por hierarquias raciais, sociais e de gênero. Isso não significa que todas as experiências de mulheres pretas sejam iguais ou que suas trajetórias possam ser explicadas exclusivamente pelo racismo. O próprio estudo trabalha com mulheres de diferentes condições socioeconômicas e mostra a diversidade dessas experiências.O ponto central é reconhecer que o amor também está inserido nas estruturas sociais. Nesse sentido, compreender o racismo como um elemento que atravessa o mercado afetivo pode ajudar a retirar das mulheres a responsabilidade exclusiva por experiências de rejeição e solidão.
Mais do que uma questão individual, os relatos apresentados no estudo revelam como os padrões sociais determinam, muitas vezes de maneira silenciosa, quem é visto como desejável, quem recebe oportunidades de construir vínculos e quem permanece à margem deles.
Fonte Comumhão.
Fonte: wp:net3gospel.com.br:53373




