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Notícias/Destaque26/08/2026· Local

Um dia de cada vez.

Eu via sinais, ao ler postagens de amigos, pastores e líderes do meio evangélico, optando por algum dos lados e fazendo defesas acaloradas de suas posições. Isso sem contar na devoção cega para com personalidades políticas, que muitas vezes mostrava mais paixão do que razão para tamanha repercussão trazida à publico pelo posicionamento tomado, sem a capacidade de análise biográfica criteriosa que se fazia do candidato A ou B.

 

Imagino que alguns deles decidiram por isso com boas intenções, outros por acharem que suas opiniões seriam importantes para guiar a Igreja e seus “seguidores” em um momento tão ideológica e politicamente turbulento. Só não mediram e nem podiam prever, à época, as sérias decorrências de seus atos no universo digital. Sem dúvida, cada brasileiro tem o direito a optar por aquilo ou aquela ou aquele que sua consciência lhe indicar, inclusive o evangélico, e seus pastores e líderes. Mas, por conta disso, alguns desses pastores e líderes acabaram por sofrer consequências severas e até possivelmente irreversíveis de suas opções públicaE, me chama a atenção como pesquisador da área, o que tenho visto nesses últimos oito anos, não apenas entre pastores e líderes, mas também entre o povo de Deus: uma enorme falta de sobriedade, equilíbrio, sabedoria e de incapacidade de medir as consequências de suas postagens e também da falta percepção da missão cristã de pacificar um ambiente de guerra , provocando mais batalhas com mortos, feridos e cancelados . A alegação de muitos que se expressam sem medida nas mídias sociais é a de que é preciso haver um posicionamento diante de variadas questões, pessoas e propostas político-ideológicas.

 

Falta a compreensão básica de que a comunicação em mídias sociais é essencialmente fluída, superficial e fortemente simbólica , no sentido de que palavras carregam um conteúdo sintetizado, apesar de todo um histórico de significados construído ao longo de anos, e sem direito a explicações, pela própria característica dos tempos atuais e do ambiente, onde a maioria de nós, leitores desse artigo não foram criados, mas inseridos. Por isso, apesar de haver nesse ambiente muita interação, há de fato pouca comunicação real, que produza conhecimento através da riqueza da pluralidade humana em seu complexo mundo existencial, dos tempos modernos atuaiZygmunt Bauman, sociólogo da modernidade líquida, disse que “as redes sociais não ensinam a dialogar, porque nelas é muito fácil evitar a controvérsia. Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha” .

 

Para aqueles que ficam subservientes ao ambiente das redes, falta também a sabedoria prática para compreender que todos precisamos de tempo e de pausa para avaliar e responder a qualquer questionamento ou questão, assim como deve ser na vida real de nossos relacionamentos cotidianos, quando em uma discussão falamos coisas das quais nos arrependemos, por conta da necessidade de dar resposta imediata, no calor do momento, em geral sem pensar adequadamente diante da importância do assunto e do momentNesse ambiente digital da overdose de postagens e informações, as pessoas normalmente não leem mais a matéria toda, não releem os artigos para checar informações e pesquisas mostram que, pela sobrecarga de informação disponível, um percentual elevado não lê mais do que o título e subtítulo . Além disso, a maioria das gerações dos usuários das mídias sociais e participantes de suas redes, carece da compreensão de que os algoritmos, aliados à Inteligência Artificial, nessas relativamente recentes mídias massificadas e orientadas para a audiência, manipulam e controlam conteúdos e pessoas, gerando bolhas e tribos, incapacitando seus usuários a ter visões de mundo diferenciadas em diálogo.

 

A comunicação disseminada poelos usuários dessas mídias é produzida para alcançar uma audiência potencialmente ampla, mas é a plataforma que determina quem terá contato com aquele conteúdo. Falsamente é passada aos usuários a ideia de que sua comunicação e conteúdo são para todos os participantes de suas redes .

 

Enfim, esse ambiente digital não é um elemento neutro e inconsequente para as relações humanas, onde o conteúdo, como dizem os slogans oficiais das principais mídias, “é grátis e sempre será”, ou “rápido e fácil” , ou um ambiente para que seu usuário “capture e compartilhe os momentos do mundo” , e nem apenas um espaço onde o usuário mostra “o que está fazendo” e “vê o que está acontecendo” . É muito mais do que isso. Não é sem motivo que algumas das principais mídias digitais estão sendo processadas por “projetarem sites viciantes e violar leis que protegem a privacidade das crianças” , incentivo ao uso prolongado, efeitos negativos sobre adolescentes, falhas na proteção de menores, utilização inadequada de dados de crianças e por conhecimento interno dos riscos e suposta falta de ação suficienImagino que boa parte das informações que listei aqui não são de conhecimento público de grande parte dos usuários dessas mídias, ou mesmos dos leitores desse breve artigo. Mas essas informações fazem parte dos argumentos que utilizo comigo mesmo diariamente, para me manter “sóbrio” nesses últimos oito anos e tenho, desde então, experimentado momentos de solitude diante desse e de outros exercícios intencionais de abstinência da informação. Tenho me dedicado mais à leitura e à música, à meditação e à reflexão, variando ao mesmo tempo atividades e exercícios que me permitam ter mais liberdade para cuidar melhor da saúde física e mental ao contemplar a vida e suas belezas.

 

Minha decisão, que exigiu enorme persistência, não quer dizer que não sou informado, e permitiu controlar e não mais ser controlado por algoritmos e pela Inteligência Artificial, nem por minha “necessidade” de estar conectado, bem-informado, ou mesmo de me sentir pertencente a determinada comunidade. Na verdade, penso que apenas aprendi a reconhecer meus limites e a delimitar o tipo e a qualidade da informação que quero ter acesso. Que Deus me ajude a me manter sóbrio . Um dia de cada vez.

 

Marcos Simas é doutor em Ciências da Religião e pesquisa religiosidade digital e novas formas de pertencimento religioso. Professor na Faculdade Teológica Sul Americana, coordena o grupo de estudos “Religião e Internet”. 

Fonte Comunhão.

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