
A mãe que esteve do começo ao fim
Maria é uma das poucas personagens que aparecem em diferentes momentos da narrativa sobre Jesus, desde o nascimento até a crucificação. Ela está na anunciação, no nascimento, em episódios da infância, nas bodas de Caná e, posteriormente, junto à cruz.
Lucas também atribui a ela o Magnificat, cântico registrado entre os versículos 46 e 55 do primeiro capítulo do Evangelho. Maria louva a Deus, reconhece sua condição de serva e celebra aquele que, segundo suas palavras, “olhou para a humildade de sua serva”.
Para Aragão, essa passagem é fundamental para compreender a própria postura de Maria. “Desde o momento em que aceitou ser a mãe do Salvador, dizendo ‘Eis aqui a serva do Senhor’ (Lucas 1:38), até o momento em que testemunhou a crucificação de Jesus (João 19:25), Maria enfrentou desafios e sofrimentos com coragem e confiança em Deus”, destaca.
Ela também aparece depois da morte e ressurreição de Jesus. Atos 1:14 registra Maria reunida com os discípulos, em oração, antes do Pentecostes. O episódio mostra que ela continuou vinculada à comunidade cristã primitiva.
Há ainda uma questão significativa relacionada a José. Depois dos relatos da infância de Jesus, ele deixa de aparecer nos Evangelhos. Na crucificação, João registra que Jesus entrega Maria aos cuidados do discípulo amado. Para Aragão, isso reforça a possibilidade de que José já tivesse morrido.
“A ausência de menções a José durante o ministério de Jesus sugere que ele já havia falecido antes desse período. Isso é reforçado pelo fato de que, na cruz, Jesus entrega Maria aos cuidados do apóstolo João, algo que não seria necessário se José estivesse vivo”, explica.
Quando Maria passou a receber devoção?
É aqui que começa uma das principais diferenças entre a Maria apresentada nos Evangelhos e a Maria venerada pela tradição católica ao longo dos séculos.
O cristianismo primitivo desenvolveu progressivamente reflexões sobre Maria, especialmente a partir da compreensão sobre quem era Jesus. O Concílio de Éfeso, em 431, teve papel importante nesse processo ao afirmar o título Theotokos, normalmente traduzido como “Mãe de Deus”. A expressão tinha como objetivo principal defender a compreensão cristã sobre a identidade divina de Jesus, e não afirmar que Maria fosse a origAo longo dos séculos, porém, a devoção mariana ganhou novas formas, títulos e práticas. Para os católicos, isso não significa adoração. A Igreja Católica estabelece uma distinção entre a adoração devida exclusivamente a Deus e a veneração dedicada a Maria e aos santos.
É justamente essa distinção que os evangélicos não aceitam da mesma maneira. “O cristão que estuda as Sagradas Escrituras rejeita a adoração ou veneração a Maria, pois acredita que isso contradiz os ensinamentos bíblicos. A Bíblia é clara ao afirmar que somente Deus deve ser adorado”, afirma Aragão, citando Êxodo 20:3-5 e Mateus 4:10.
Na interpretação evangélica apresentada pelo pastor, Maria deve ser respeitada por sua importância na história da salvação, mas não receber uma função espiritual que pertença a Deus ou a Cristo. “Maria nunca buscou adoração para si mesma e sempre apontou para Deus como a fonte de sua bênção (Lucas 1:46-49). Respeito Maria como a mãe de Jesus e um exemplo de fé, mas rejeito qualquer forma de idolatria ou veneração que a coloque em um papel divino”, conclui.
Nossa Senhora Aparecida é Maria?
A resposta, dentro da tradição católica, é sim. Nossa Senhora Aparecida não seria uma outra personagem, mas um título atribuído à mesma Maria dos Evangelhos. A devoção brasileira nasceu em torno da imagem encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717. A pequena imagem era uma representação de Nossa Senhora da Conceição e, posteriormente, tornou-se o centro da devoção que transformaria Aparecida em um dos maiores símbolos religiosos do país.
Isso ajuda a entender por que a imagem levantada por Flávio Bolsonaro tem um significado que ultrapassa a política. Para milhões de católicos, trata-se da representação de Maria, mãe de Jesus e figura central da fé cristã. Para muitos evangélicos, entretanto, o mesmo gesto pode ser interpretado como aproximação de uma prática religiosa que sua tradição rejeita.
A diferença também aparece na forma como católicos e evangélicos compreendem a intercessão. O catolicismo ensina que Maria pode interceder pelos fiéis, sem substituir Cristo como único mediador da salvação. Igrejas evangélicas, em geral, entendem que a Bíblia não autoriza esse tipo de prática e que o cristão deve dirigir sua oração diretamente a Deus, por meio de Jesus por isso, a imagem de Nossa Senhora Aparecida se tornou um objeto tão sensível na disputa pelo voto religioso. Ela carrega uma história de fé para os católicos e, ao mesmo tempo, toca em uma fronteira teológica importante para os evangélicos.
Maria também está no Alcorão
A influência histórica de Maria, porém, ultrapassa as fronteiras do cristianismo. Ela também ocupa um lugar de destaque no islamismo, onde é chamada de Maryam. É a única mulher mencionada nominalmente no Alcorão e dá nome à Surata 19, na qual aparece como mãe de Isa, Jesus.
No texto islâmico, Maryam é apresentada como uma mulher escolhida e virtuosa. A tradição muçulmana, assim como as tradições cristãs, preserva uma narrativa de nascimento extraordinário de Jesus, embora interprete sua identidade de maneira diferente do cristianismo.
Maria, portanto, não é apenas uma personagem da devoção católica brasileira. Ela pertence à história religiosa de diferentes tradições e está entre as mulheres mais conhecidas da história da humanidade.
Muito além do palanque
A tentativa de aproximar uma candidatura de um símbolo religioso tão poderoso revela como a religião se tornou parte importante da disputa política brasileira. Mas reduzir Maria a um instrumento eleitoral significa perder justamente a dimensão mais importante de sua história.
Antes de ser representada em imagens, receber títulos ou aparecer em palanques, Maria foi uma jovem judia de Nazaré. Foi mãe de Jesus, enfrentou uma gravidez cercada de riscos sociais, acompanhou o filho até a cruz e permaneceu entre os primeiros discípulos da comunidade cristã.
Católicos e evangélicos leem essa história a partir de tradições teológicas diferentes. Para os primeiros, Maria ocupa um lugar singular na devoção cristã. Para os segundos, sua grandeza está justamente em sua condição de serva de Deus e testemuE talvez uma das melhores chaves para compreender essa diferença esteja em uma frase atribuída à própria Maria no Evangelho de João. Nas bodas de Caná, diante de uma necessidade, ela orienta os serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (João 2:5).
A frase ajuda a explicar por que Maria continua sendo uma personagem tão central. Para os católicos, ela aponta para Cristo e participa da vida da Igreja. Para os evangélicos, o mesmo episódio reforça que o centro da fé cristã está em Jesus, não em sua mãe.
Entre a imagem levantada em um palanque e a jovem descrita nos Evangelhos existe, portanto, uma história de dois mil anos. E é nela, muito mais do que na disputa eleitoral de uma semana, que está a verdadeira dimensão de Maria.
Fonte: Fonte Comunhão




