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Notícias/Destaque29/09/2026· Local

Pastores reagem após crise de Flávio com Nossa Senhora

É nesse ambiente que aparece a nota do CIMEB. O documento afirma que “evangélicos e católicos vivem em paz” e nega qualquer iniciativa de líderes evangélicos, junto a candidaturas, para cancelar feriados ou cultos de outras religiões. A entidade, que afirma reunir mais de 10 mil pastores de diferentes denominações, sustenta que a circulação da informação teve como consequência estimular uma divisão religiosa durante a campanha. Essa acusação, contudo, representa a interpretação dos signatários sobre o episódio.

Uma reação na semana decisiva

A escolha do momento não é irrelevante. A controvérsia surgiu justamente quando o eleitorado religioso ganhou ainda mais importância na disputa presidencial. A pesquisa BTG/Nexus divulgada em 28 de setembro mostra um cenário bastante diferente entre católicos e evangélicos. No primeiro turno, Lula aparece com 50% entre os católicos, contra 26% de Flávio. Entre os evangélicos, Flávio tem 50%, contra 31% de Lula.

No segundo turno, a distância permanece: entre católicos, Lula registra 52%, contra 39% de Flávio. Entre evangélicos, o cenário se inverte, com 57% para Flávio e 35% para Lula. No conjunto da população, a mesma pesquisa mostra Lula com 46% e Flávio com 44%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

A comparação com a rodada anterior ajuda a dimensionar o movimento. Segundo a Nexus, a vantagem de Flávio entre evangélicos no primeiro turno caiu de 25 para 19 pontos percentuais, enquanto a vantagem de Lula entre católicos passou de 20 para 24 pontos. A própria apresentação da pesquisa cita, entre os acontecimentos recentes associados às mudanças, a polêmica envolvendo Nossa Senhora, mas ressalva que não é possível determinar se o movimento permanecerá até a eleição. Portanto, os números mostram uma mudança no comportamento declarado dos grupos religiosos, mas não permitem atribuir causalidade direta ao epA crise também ganhou uma dimensão jurídica. O ministro André Mendonça, no TSE, havia determinado a retirada de conteúdos que associavam Flávio à suposta tentativa de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. Posteriormente, o ministro Flávio Dino, no STF, permitiu a circulação de algumas dessas publicações. Nesta terça-feira (29), o ministro Luiz Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu a ordem de retirada do conteúdo, em uma disputa que ainda deverá ser analisada pelo plenário do Supremo.

Quem assinou a nota

Entre os 14 signatários estão Silas Malafaia, Estevam Hernandes, Robson Rodovalho, César Augusto, Samuel Câmara, Galdino Júnior, Jabes de Alencar, Teó Hayashi, Cláudio Duarte, Luiz Hermínio, Ezequiel Teixeira, Paulo Roberto, Marcus Gregório e Simonton Araújo.

Alguns desses nomes têm uma relação política pública e documentada com a família Bolsonaro. O caso mais evidente é o de Silas Malafaia, que criou o CIMEB e é um dos principais líderes evangélicos que atuam publicamente em defesa do grupo político ligado aos Bolsonaro. Na atual campanha, Malafaia tem se manifestado favoravelmente a Flávio e passou a ocupar novamente espaço relevante na mobilização do eleitorado evangélico.

Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo e um dos idealizadores da Marcha para Jesus, também declarou apoio explícito a Flávio. Em 9 de setembro, publicou em seu Instagram fotografias ao lado do candidato durante a Marcha para Jesus e afirmou que votaria nele. Hernandes já havia apoiado Jair Bolsonaro em 2022. A esposa, Sonia Hernandes, também participou de manifestações públicas ligadas ao campo Bolsonaro signatário com longa relação pública com os Bolsonaro é Robson Rodovalho, fundador da Sara Nossa Terra. O bispo foi autorizado a prestar assistência religiosa a Jair Bolsonaro e, ao longo de 2026, tornou-se um dos interlocutores da aproximação de Flávio com lideranças evangélicas. Em agosto, Rodovalho afirmou que o candidato estava reconstruindo pontes com pastores e relatou a existência de uma articulação para mobilizar o segmento evangélico em torno da candidatura.

A atuação desses líderes ajuda a explicar o peso político da nota. Não se trata simplesmente de uma manifestação sobre a relação entre católicos e evangélicos. O documento é publicado por uma entidade que reúne lideranças religiosas e, entre seus signatários, estão pastores que assumiram publicamente posições favoráveis à candidatura de Flávio ou à família Bolsonaro.

A disputa pela confiança dos religiosos

A questão central agora é saber se a correção da informação sobre Nossa Senhora conseguirá alcançar o mesmo público que recebeu a acusação inicial. A velocidade de propagação nas redes tornou esse um problema particularmente delicado para a campanha. O episódio chegou a mobilizar quase 1 milhão de menções em 55 horas, segundo levantamento do Instituto Democracia em Xeque, transformando a controvérsia em um dos principais assuntos políticos daquele período.

A reação do CIMEB ocorre, portanto, em uma disputa que envolve informação, identidade religiosa e voto. Ao afirmar que católicos e evangélicos vivem em paz e rejeitar qualquer iniciativa contra feriados ou cultos católicos, os pastores procuram estabelecer uma distinção entre as diferenças doutrinárias das duas tradições e a disputa eleitoral. Ao mesmo tempo, a nota recoloca no centro do debate a tentativa de Flávio de consolidar sua relação com o eleitorado evangélico sem ampliar resistências entre os catA própria campanha de Flávio passou a enfatizar que qualquer referência a um Brasil pertencente a Jesus Cristo seria simbólica, e não uma proposta de transformação religiosa do Estado. A declaração havia provocado repercussão justamente no momento em que a controvérsia sobre Nossa Senhora ainda estava em circulação.

Assim, a manifestação do CIMEB chega na reta final como mais uma tentativa de disputar a interpretação religiosa da eleição. Os números mostram que Flávio mantém vantagem expressiva entre evangélicos, enquanto Lula lidera entre católicos, mas também registram alterações recentes nesses dois grupos. O que os dados ainda não permitem afirmar é quanto dessas mudanças decorre especificamente da polêmica com Nossa Senhora e quanto resulta de outros acontecimentos da campanha.

A nota na íntegra

cimeb

Fonte: Fonte Comunhão