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Notícias/REFLEXÕES11/10/2026· Local

Nossa Senhora: por que Maria divide católicos e evangélicos?

Isso ajuda a entender por que a imagem levantada por Flávio Bolsonaro tem um significado que ultrapassa a política. Para milhões de católicos, trata-se da representação de Maria, mãe de Jesus e figura central da fé cristã. Para muitos evangélicos, entretanto, o mesmo gesto pode ser interpretado como aproximação de uma prática religiosa que sua tradição rejeita.

A diferença também aparece na forma como católicos e evangélicos compreendem a intercessão. O catolicismo ensina que Maria pode interceder pelos fiéis, sem substituir Cristo como único mediador da salvação. Igrejas evangélicas, em geral, entendem que a Bíblia não autoriza esse tipo de prática e que o cristão deve dirigir sua oração diretamente a Deus, por meio de Jesus Cristo.

Por isso, a imagem de Nossa Senhora Aparecida se tornou um objeto tão sensível na disputa pelo voto religioso. Ela carrega uma história de fé para os católicos e, ao mesmo tempo, toca em uma fronteira teológica importante para os Evangélicos também está no Alcorão

A influência histórica de Maria, porém, ultrapassa as fronteiras do cristianismo. Ela também ocupa um lugar de destaque no islamismo, onde é chamada de Maryam. É a única mulher mencionada nominalmente no Alcorão e dá nome à Surata 19, na qual aparece como mãe de Isa, Jesus.

No texto islâmico, Maryam é apresentada como uma mulher escolhida e virtuosa. A tradição muçulmana, assim como as tradições cristãs, preserva uma narrativa de nascimento extraordinário de Jesus, embora interprete sua identidade de maneira diferente do cristianismo.

Maria, portanto, não é apenas uma personagem da devoção católica brasileira. Ela pertence à história religiosa de diferentes tradições e está entre as mulheres mais conhecidas da história da Humanidade além do palanque

A tentativa de aproximar uma candidatura de um símbolo religioso tão poderoso revela como a religião se tornou parte importante da disputa política brasileira. Mas reduzir Maria a um instrumento eleitoral significa perder justamente a dimensão mais importante de sua história.

Antes de ser representada em imagens, receber títulos ou aparecer em palanques, Maria foi uma jovem judia de Nazaré. Foi mãe de Jesus, enfrentou uma gravidez cercada de riscos sociais, acompanhou o filho até a cruz e permaneceu entre os primeiros discípulos da comunidade crisCatólicos e evangélicos leem essa história a partir de tradições teológicas diferentes. Para os primeiros, Maria ocupa um lugar singular na devoção cristã. Para os segundos, sua grandeza está justamente em sua condição de serva de Deus e testemunha de Cristo.

E talvez uma das melhores chaves para compreender essa diferença esteja em uma frase atribuída à própria Maria no Evangelho de João. Nas bodas de Caná, diante de uma necessidade, ela orienta os serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (João 2:5).

A frase ajuda a explicar por que Maria continua sendo uma personagem tão central. Para os católicos, ela aponta para Cristo e participa da vida da Igreja. Para os evangélicos, o mesmo episódio reforça que o centro da fé cristã está em Jesus, não em sua mãe.

Entre a imagem levantada em um palanque e a jovem descrita nos Evangelhos existe, portanto, uma história de dois mil anos. E é nela, muito mais do que na disputa eleitoral de uma semana, que está a verdadeira dimensão de Maria.

Fonte: Comunhão