
Essa parcela tem significado diferente da abstenção. Quem não comparece não participa da votação; quem vota branco ou nulo compareceu à seção eleitoral, mas não transformou sua participação em um voto válido para um candidato. Por isso, os números devem ser apresentados juntos para dimensionar o eleitorado que não produziu uma escolha válida, mas não podem ser tratados como se expressassem necessariamente a mesma motivação.
A comparação com 2018 ajuda a entender essa diferença. Naquele primeiro turno, houve 29,94 milhões de ausentes, 3,11 milhões de votos brancos e 7,21 milhões de nulos. Já em 2022, foram 32,77 milhões de ausentes, 1,96 milhão de brancos e 3,49 milhões de nuloE se esses 39 milhões fossem um eleitorado próprio?
Se esses 39,45 milhões fossem concentrados em uma única candidatura, esse nome teria recebido uma votação superior à de qualquer candidato presidencial do primeiro turno que não estivesse entre os dois classificados para a etapa final. Não significa, naturalmente, que essas pessoas tenham votado em uma mesma direção. A comparação serve apenas para dimensionar o tamanho do contingente.
No exterior, o afastamento é ainda maior
Fora do Brasil, o cenário é ainda mais expressivo. O eleitorado brasileiro no exterior chegou a aproximadamente 918,9 mil pessoas aptas a votar em 2026. A participação, entretanto, ficou muito abaixo da registrada dentro do país. A abstenção ficou próxima de 63%, o que significa que aproximadamente seis em cada dez eleitores cadastrados no exterior não compareceram.
Em alguns países, a diferença foi ainda maior. Nos Estados Unidos, por exemplo, a abstenção ultrapassou 70%. O fenômeno chama atenção porque o eleitorado brasileiro fora do país cresceu nos últimos anos, mas a ampliação do cadastro não veio acompanhada de uma participação proporcionalmente maior.
O cansaço com a polarização
Para o estrategista e criativo de marketing político e eleitoral Fernando Carreiro, os números podem estar relacionados a um desgaste acumulado de parte do eleitorado com a forma como a disputa política vem sendo aprNa avaliação dele, uma parcela dos brasileiros pode ter se cansado de uma política que cobra a escolha de um lado, mas não apresenta uma perspectiva concreta de saída para problemas cotidianos. Segundo Carreiro, anos de polarização, escândalos e conflitos envolvendo também a Justiça e o Supremo Tribunal Federal contribuíram para a percepção de um ambiente político permanente de confronto, distante das urgências da população.
“Quando o cidadão deixa de acreditar que seu voto pode melhorar a realidade, a obrigação de votar perde força diante da falta de vontade de participar”, explica.
Carreiro, porém, faz uma ressalva importante: nem toda abstenção representa uma manifestação política. Há eleitores que não comparecem por motivos pessoais, dificuldades de deslocamento, viagens, problemas de saúde ou outras circunstâncias. Por isso, o aumento da abstenção não pode ser convertido automaticamente em um diagnóstico de rejeição aos candidatos ou ao sistema político.
A análise do estrategista também alcança quem compareceu às urnas. Para ele, parte dos votos pode ter sido motivada menos por identificação e mais pela tentativa de impedir a vitória do adversário. Nesse cenário, o resultado eleitoral não necessariamente significa uma adesão plena ao candidato escolhido. “Esse é o alerta aos eleitos: a vitória pode expressar mais rejeição ao adversário do que adesão ao vencedor”, justifica.
A leitura ganha importância diante do segundo turno. Com apenas dois candidatos na disputa, o eleitor que se absteve no primeiro turno pode voltar às urnas, assim como quem votou em candidatos que ficaram pelo caminho. O desafio dos dois concorrentes, portanto, não está apenas em preservar suas bases, mas também em dialogar com um contingente expressivo que não produziu um voto válido na Primeira existe espaço para recuperar parte desse eleitorado, mas isso dependeria de uma mudança no discurso. Em vez de ampliar o confronto, os candidatos precisariam apresentar uma perspectiva concreta de melhora para a vida do cidadão.
“Quem está cansado da guerra dificilmente se entusiasma com a promessa de mais uma batalha”, pontua.
O resultado do primeiro turno, portanto, deixa uma mensagem que vai além da disputa entre os dois candidatos que avançaram. Quase um quarto do eleitorado apto não produziu um voto válido para presidente. O número não permite afirmar que essas pessoas estejam rejeitando a política, os candidatos ou a democracia, mas revela um desafio concreto de participação.
Em uma democracia em que o voto é obrigatório para a maioria dos eleitores, a distância entre estar legalmente obrigado a votar e efetivamente se sentir motivado a participar merece atenção. O crescimento da abstenção desde 2006, combinado com milhões de votos brancos e nulos, coloca uma questão para além do resultado das urnas: quantos brasileiros ainda se sentem representados pelas escolhas que a política oferece?
A resposta não está necessariamente nos 39,45 milhões de votos que não se transformaram em uma escolha válida. Mas o tamanho desse contingente torna difícil tratá-lo apenas como uma estatística. Ele representa pessoas que, por razões diferentes, ficaram fora da escolha presidencial efetiva no primeiro turno. E, para os candidatos que chegaram ao segundo, representa também um enorme eleitorado que ainda precisa ser convencido a participar.
Fonte: Comunhão




