
Sistema usa imagens aéreas captadas por drones a 15 metros de altura - Foto: Jayme Garcia Arnal Barbedo Em Mato Grosso do Sul, onde a pecuária intensiva move cifras milionárias, o uso de inteligência artificial na pecuária de corte surge para resolver um problema crônico na engorda: descobrir a hora exata de mandar o boi para o frigorífico sem queimar dinheiro com ração. Uma tecnologia inédita testada no confinamento da Fazenda Campanário, no município sul-mato-grossense de Laguna Carapã, usa drones para acompanhar o ganho de massa do rebanho pelo ar, dispensando a necessidade de levar os animais para a balança. O experimento foi conduzido por pesquisadores da Embrapa Agricultura Digital, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e da Universidade de São Paulo (USP). O estudo ataca um gargalo comum nas fazendas de corte: ao atingir seu teto natural de crescimento, o bovino passa a converter quase nada do que come em carne. A partir dessa saturação, cada dia a mais no cocho gera gasto com silagem e concentrado sem ganho de peso, comendo a margem de lucro do produtor. No artigo científico publicado na revista Computers and Electronics in Agriculture , os próprios pesquisadores apontam o problema do manejo comum: as pesagens periódicas “exigem contenção física, demandam mão de obra intensiva e podem induzir estresse nos animais, afetando potencialmente o bem-estar e o desempenho de ganho de peso” . Adeus ao aperto do tronco e menos estresse no curral No método convencional, acompanhar o lote exige empurrar a boiada pelos corredores até o tronco de contenção — estrutura de madeira ou metal feita para prensar o animal para que ele fique imóvel na balança. Além de exigir equipes inteiras, o processo machuca o gado, provoca hematomas que são descartados na carcaça e causa perdas de peso devido ao nervosismo dos bichos. Por ser tão trabalhoso, o pecuarista costuma pesar o gado só na entrada e no embarque final, trabalhando “no escuro” durante a engorda . Para mudar isso, o sistema coloca drones sobrevoando os piquetes a 15 metros de altura. Nessa distância, os bois nem sequer percebem a presença da hélice no céu e continuam pastando e descansando naturalmente. Do alto, a câmera fotografa todo o lote, e os programas de inteligência artificial entram em ação em duas etapas: Primeiro, um modelo localizador acha cada boi no meio do confinamento com 95,56% de acerto. Em seguida, outro programa contorna com precisão o corpo do animal, traçando sua silhueta exata. Com esses dois passos, o computador mede os animais sozinho, sem precisar que uma pessoa analise as fotos manualmente. O pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, Jayme Garcia Arnal Barbedo, detalha o filtro inteligente criado pela equipe: “Os animais se movimentam constantemente, deitam-se ou ficam em posições curvadas. Por isso, a inteligência artificial analisa todo o lote e descarta automaticamente indivíduos deitados ou em ângulos desfavoráveis, retendo apenas os animais em pé e em postura reta dentro da janela central da imagem. Isso nos permite calcular uma média extremamente precisa para o rebanho” . A proporção do boi vista do céu A base do cálculo é simples: o sistema compara a largura com o comprimento do boi . Quando o Nelore vai engordando no confinamento, ele ganha musculatura no lombo e cobertura de gordura, ficando visivelmente mais largo em relação à sua extensão . A grande vantagem dessa fórmula é que ela funciona como uma régua proporcional . Mesmo que o drone suba ou desça alguns centímetros por causa do vento, a relação entre largura e comprimento continua a mesma, sem distorcer o resultado . O programa organiza essas medidas em um gráfico de engorda com formato parecido com a letra “S”, comum na biologia : Fase inicial: o ganho de peso começa em ritmo lento enquanto o gado se acostuma com o lote e a ração (adaptação). Fase rápida: a engorda atinge sua velocidade máxima e o animal ganha peso muito depressa. Platô final: o boi atinge o limite do seu desenvolvimento. A partir daqui, a curva de crescimento estabiliza e o animal para de acumular carne. Economia milionária na prática em Laguna Carapã O teste foi aplicado no confinamento da Fazenda Campanário, propriedade que abriga cerca de 14,6 mil animais em Laguna Carapã . A equipe acompanhou 110 bois Nelore, com média de 18 meses de vida, ao longo de 112 dias, com voos de checagem a cada dez dias . A inteligência artificial acusou que a boiada atingiu o platô de saturação — ou seja, parou de responder à comida — uma semana antes da data planejada pelo calendário fixo da fazenda. Com o alerta da tela, os animais puderam ser enviados ao frigorífico sete dias mais cedo, cortando o gasto desnecessário com alimentação. Apenas no grupo de 110 cabeças do teste, a economia em ração bateu R$ 15 mil . Ao projetar esse mesmo ganho para o rebanho total do confinamento da propriedade (14,6 mil bovinos), o alívio no bolso pode chegar a R$ 2 milhões . “A curva de ganho de peso de um lote de animais para corte tem uma forma característica em ‘S’: começa devagar na fase de adaptação, entra em um período de ganho muito acelerado e, na etapa final, ocorre uma desaceleração. A partir desse ponto, não importa quanta alimentação você forneça, o animal não vai mais converter ração em carne na mesma proporção” , ressaltou Barbedo. “Às vezes, um dia de diferença na decisão de abate ou na negociação do lote pode aumentar o lucro daquela operação entre 5% e 10%” . Da universidade para as fazendas comerciais Na conclusão do artigo científico, os autores reforçam que o objetivo não é cravar um dia engessado, mas oferecer ao pecuarista “uma janela de comercialização economicamente apropriada, que equilibra o potencial de ganho residual contra os custos contínuos de alimentação”. A pesquisa contou com suporte da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (Fundect-MS), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do projeto Semear Digital. Com a validação concluída em solo sul-mato-grossense, os cientistas buscam empresas e startups para levar o software comercialmente às propriedades. “Estamos muito próximos de obter um protótipo funcional completo do sistema. O próximo passo crucial será estabelecer parcerias com empresas do setor ou agtechs para transformar essa pesquisa em um produto comercial disponível em grande escala para os pecuaristas” , adiantou Barbedo. Além da engorda, os pesquisadores já ensinam as câmeras aéreas a flagrar brigas por comida e gado amontoado no cocho, e estudam usar drones para detectar doenças como a mastite em vacas leiteiras . O post Testada em MS, inteligência artificial calcula momento exato para abate e evita prejuízo no confinamento apareceu primeiro em RCN67 .
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