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Notícias30/10/2026· via Local

Parteiras, Vizinhas e Mulheres Comuns: Quem Eram as Bruxas de Verdade?

Mulheres fantasiadas de bruxas posam para fotografia por volta de 1910 - Reprodução/Getty Images A figura clássica da bruxa de chapéu pontudo, voando em sua vassoura com um caldeirão borbulhante ao lado, habita o imaginário popular mundial. Durante o período de Halloween , essa imagem ganha ainda mais destaque em decorações, fantasias e produções audiovisuais. Por trás do ícone pop da cultura de massa existe uma trajetória histórica complexa, marcada por julgamentos, discursos religiosos, disputas cotidianas e profundas desigualdades de gênero. A grande onda de perseguição às chamadas bruxas ocorreu entre os séculos XV e XVIII, na Modernidade . O imaginário comum costuma associar o fenômeno à Idade Média , mas a caça às bruxas ganhou força com a consolidação de manuais jurídicos e religiosos no início da Era Moderna. A percepção de uma pessoa como bruxa nasceu gradualmente através da construção de discursos teológicos e legais. Essas narrativas permitiram transformar divergências comuns entre vizinhos em acusações formais de feitiçaria e pactos com o demônio. Um caso emblemático ocorreu na vila de Salem, em 1692. Rebecca Nurse era uma mulher respeitada pela comunidade puritana, mas acabou acusada de bruxaria em meio à onda de denúncias que tomou conta da região. Aos 71 anos, negou as acusações, mas foi condenada à morte e enforcada em julho daquele ano. Sua história mostra como até mulheres idosas e respeitadas podiam se tornar alvos de suspeitas em uma sociedade marcada pelo medo e pela rigidez religiosa. Misoginia e a construção do perfil Não existiu um perfil genérico ou homogêneo das pessoas acusadas. Mulheres de diferentes faixas etárias e camadas sociais acabaram alvos de denúncias ao provocarem desconfiança em suas comunidades por causas variadas. A predominância feminina entre as vítimas decorreu do machismo nas sociedades europeias do período. Discursos intelectuais e teológicos apresentavam a figura feminina como moralmente frágil e propensa às tentações demoníacas, aludindo à narrativa bíblica da criação com Eva. É impreciso afirmar que todas as acusadas atuavam como parteiras ou curandeiras com conhecimentos de ervas. O termo bruxa serviu historicamente como um rótulo amplo aplicado a um grupo diversificado de mulheres consideradas dissidentes dos padrões morais ou sociais vigentes. “A construção dessa percepção do outro como ‘bruxa’ ocorreu progressivamente, por meio da elaboração de discursos jurídicos e religiosos que permitiram interpretar conflitos cotidianos como manifestações de práticas sobrenaturais”, explica o professor André Luiz Marcondes Pelegrinelli, historiador da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O papel da Igreja e os manuais de Inquisição A Igreja Católica desempenhou papel central na estruturação de teses teológicas que associaram práticas mágicas e crenças populares aos crimes de heresia e apostasia. A demonização dessas práticas culminou na publicação do Malleus Maleficarum ( O Martelo das Feiticeiras ) em 1486, escrito pelo inquisidor dominicano Heinrich Kramer. O livro serviu de guia prático para autoridades civis e religiosas identificarem, interrogarem e punirem supostas bruxas. A obra trazia uma carga expressivamente misógina ao reforçar a ideia da vulnerabilidade das mulheres perante o diabo. Com o advento da Reforma Protestante no século XVI, o fenômeno não ficou restrito ao catolicismo romano. Diversas vertentes protestantes também elaboraram teorias demonológicas e conduziram julgamentos rigorosos em territórios sob seu domínio. Mitos sobre as execuções na fogueira A morte na fogueira existiu como fato histórico registrado, mas a ideia de que todas as vítimas morreram queimadas configura uma simplificação. A aplicação das penas variava conforme a jurisdição do tribunal e a região europeia do julgamento. Em diversos locais da Europa e nas colônias americanas, o enforcamento representou o método principal de execução dos condenados. Além disso, muitas investigações terminavam com absolvições ou penas alternativas, tornando incorreto considerar a fogueira o único destino. “A imagem da bruxa queimada na fogueira é, portanto, historicamente fundamentada, mas não representa a totalidade das perseguições e a sua transformação em estereótipo da perseguição se deu sobretudo por meio de produções contemporâneas”, ressalta Pelegrinelli. As origens do Halloween e a cultura de massa A celebração do Halloween possui raízes históricas independentes do fenômeno da caça às bruxas. Festividades ligadas ao sobrenatural e ao culto dos mortos já existiam nas Ilhas Britânicas e em áreas de influência celta e católica desde a Alta Idade Média. A Igreja vinculou essas tradições às festas de Todos os Santos e Finados em novembro, mantendo costumes de vigília aos finados. A fusão entre o Halloween e a figura da bruxa ocorreu tardiamente, no decorrer dos séculos XIX e XX. Foi a indústria cultural e o folclore dos Estados Unidos que popularizaram a estética atual da bruxa associada à data festiva . Elementos visuais como vassouras voadoras, chapéus cônicos e caldeirões pretos tornaram-se itens globais de consumo e entretenimento. “A associação com as bruxas se consolidou muito recentemente, sobretudo por meio do folclore, da literatura e da cultura visual e comercial dos séculos XIX e XX em âmbito estadunidense, que transformou a festa como a conhecemos hoje em um produto de exportação”, aponta o historiador. Ressignificação do símbolo no movimento feminista Ao longo do século XX, movimentos sociais e culturais reinterpretaramm a memória dessas perseguições. A figura outrora enxergada como perigo social passou a representar independência e recusa à submissão das estruturas patriarcais. Um exemplo dessa mudança ocorreu em 1968 nos Estados Unidos com a criação do grupo ativista W.I.T.C.H . As integrantes utilizavam a mística da bruxa em manifestações públicas contra a desigualdade de gênero e o machismo. Historiadores reforçam a necessidade de diferenciar o uso político contemporâneo da realidade vivenciada pelas vítimas dos séculos passados. As mulheres processadas no período moderno não integravam um movimento articulado de resistência consciente contra o Estado ou a Igreja. Casos históricos como o de Joana d’Arc ilustram a disputa pela memória ao longo do tempo. Condenada à morte em 1431 com acusações de heresia e feitiçaria, a jovem acabou reabilitada, canonizada e transformada em ícone por correntes políticas divergentes. Homens julgados e a continuidade das acusações Os registros históricos apontam que o crime de bruxaria também atingiu a população masculina . Embora as mulheres representassem a ampla maioria dos réus na Europa Continental, certas regiões registraram dinâmicas diferentes. Na Islândia, a maioria dos processados e executados por práticas mágicas era composta por homens. Nesses casos, as acusações focavam em ritos de magia erudita e uso de amuletos, sem a carga de misoginia ligada ao corpo e ao sexo feminino. O fim das grandes perseguições ocorreu de forma gradual a partir do final do século XVII, impulsionado por mudanças nos critérios judiciais de produção de provas e pelo avanço do pensamento iluminista no século XVIII. Contudo, a violência motivada por acusações de feitiçaria persiste no mundo contemporâneo. Em 2023, relatórios das Nações Unidas denunciaram casos de linchamentos e execuções de mulheres acusadas de bruxaria em países da África e da Ásia, demonstrando a permanência desse estigma em contextos de extrema vulnerabilidade social. O post Parteiras, Vizinhas e Mulheres Comuns: Quem Eram as Bruxas de Verdade? apareceu primeiro em RCN67 .

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